• Os acontecimentos que vão nos marcar ao longo da vida acontecem quando a gente menos espera. Ainda mais quando somos imberbes, sem nem uma década de vida, temos de dar a mão para atravessar a rua ou pedir permissão para ir à venda. Foi nessa época, num domingo dos anos noventa, que saí com meus pais para ir ao supermercado. No caminho, era preciso passar por uma passarela que liga o bairro Simões Lopes ao Centro, ao lado da antiga estação ferroviária. Foi sobre essa passarela que vi, pela primeira vez, a galera andando de skate.

    A estação ferroviária é um prédio tombado como patrimônio arquitetônico, mas, naquela época, a arquitetura estava mesmo quase tombando. O prédio estava há muito tempo desativado, para não dizer diretamente, atirado às traças. A plataforma de embarque, com chão de cimento liso e nenhum movimento, foi uma descoberta apropriada para os skatistas habitarem.

    Nos anos noventa, para andar de skate com sossego, era preciso estar em lugares pouco movimentados. As pessoas não eram simpáticas com os skatistas. Posso dizer que não eram nada simpáticas. Os skatistas eram tidos como jovens, drogados e desordeiros, o que, de certa forma, tinha um pouco de verdade. Por isso, após esse domingo, pedi e pedi um skate para os meus pais, mas precisaram de uns dois ou três natais para a coisa acontecer.

    Faz algo em torno de vinte e seis anos que o skate entrou na minha vida. Em muitos momentos, escolhi andar de skate em vez de ir para a faculdade ou mesmo trabalhar. A liberdade que o skate me proporciona, queria que fizesse parte, intensamente, da minha juventude. Às vezes, deu certo; outras, não. Neste mês, iniciei minha jornada no mestrado em História, com uma pesquisa voltada para a história do skate em Pelotas. Continuo perseguindo o sentimento de liberdade.

  • “Gosto de sentir a minha língua roçar a língua de Luís de Camões”, diz Caetano Veloso no primeiro verso da música “Língua”, e segue: “Gosto do Pessoa na pessoa / Da rosa no Rosa / E sei que a poesia está para a prosa / Assim como o amor está para a amizade.”

    Caetano celebra a língua portuguesa pensando em “criar confusões de prosódias / E uma profusão de paródias”, com a ideia de que o mesmo idioma é falado em diferentes países, mas não se trata exatamente da mesma língua. No Brasil, vinga a equação Lusitânia + América = Lusamérica. A língua é um território cultural que não coincide com o território geográfico: “Minha pátria é minha língua.”

    Olavo Bilac também celebra a língua portuguesa e faz uma verdadeira declaração de amor no soneto “A última flor do Lácio”. O poeta chama a língua de “inculta e bela” e diz: “És, a um tempo, esplendor e sepultura;” e se declara: “Amo o teu viço agreste e o teu aroma” e lembra que é no português: “E em que Camões chorou, no exílio amargo / Em que da voz materna ouvi: ‘meu filho!’”.

    Essa língua o povo brasileiro precisa se apropriar. 

    Ainda é possível ouvir pessoas dizendo coisas do tipo: “Eu não escrevo porque não sou bom em português.” Quando ouço uma frase como essa, penso que nosso povo é tão sofrido que acha que não tem direito à própria língua. Isso passa muito pela escola e por professores que, no ensino do português e da gramática, não têm habilidade para transmitir paixão pelas palavras e acabam apenas ensinando regras.

    Mas vamos celebrar!

    Abaixo, links para o poema do Bilac e para a música do Caetano.

    LEIA

    https://www.academia.org.br/academicos/olavo-bilac/textos-escolhidos

    “https://www.youtube.com/watch?v=lh9jvtLeTLQ

    *

    Trabalho da disciplina Letramento Digital, ministrada pelo professor Daniel Garcia, do curso de Pós-Graduação em Linguagens Verbo-Visuais e Tecnologias do IFSul – Câmpus Pelotas.

  •      Certo dia, no adolescente século XIX – 1826, 1827, por aí –, o francês Joseph Niépce colocou uma câmera escura em frente à janela do segundo andar de sua casa. Dentro da câmera, havia uma placa metálica besuntada em um produto químico chamado betume da Judeia. Como Niépce já tinha habilidade no métier, não deixou de conferir a estabilidade do tripé e checar a formação de nuvens perto do Sol. Com tudo pronto, tirou o protetor da lente e deixou que a luz entrasse por cerca de oito horas na câmera. Depois desse experimento, o mundo nunca mais seria o mesmo.

         A “Vista da janela em Le Gras’’ é considerada a primeira imagem permanente produzida a partir de uma câmera escura. Nos anos seguintes, outros pioneiros avançaram nessas experiências. O inglês William Talbot e o franco-brasileiro Hercule Florence chegaram quase lá, mas, isolados em seus laboratórios, não divulgaram de imediato suas descobertas.

         Foi o francês Louis Daguerre, cupincha de Niépce nas pesquisas, que tornou conhecida a nova técnica. No dia 19 de agosto de 1839, em uma sessão superlotada da Academia de Ciências da França, em Paris, foi feita apresentação pública do daguerreótipo. O processo, que levava o nome de Daguerre, havia produzido imagens como a do “Boulevard du Temple’’ e rapidamente virou uma febre, com manuais sobre como fazer daguerreótipos traduzidos em dezenas de idiomas e enviados ao mundo todo.

         Ainda assim, para capturar boas imagens naquele período, era preciso ter uma têmpera de cientista. As composições químicas eram tão inusitadas quanto misturar uísque, energético e gelo de coco. Ao passo que foi na segunda metade do século XIX, com equipamentos mais aprimorados, que a bem-sucedida arte do retrato produziu um efeito transformador.

         A possibilidade de fazer retratos fiéis, com rapidez e poucos gastos, permitiu às pessoas guardarem suas imagens e revê-las décadas depois. Claro que os pintores também faziam retratos, mas, na imagem fotográfica, permaneciam o olhar, as olheiras, as rugas, as cicatrizes, as papadas, os cabelos hirsutos… Ou seja, você no tempo passado, cuspido e escarrado.

         Com isso, a fotografia criou a memória visual íntima. No ato solitário de segurar uma foto, a imaginação nos transporta imediatamente àquele instante e, dependendo da intensidade da emoção, é possível resgatar as conversas, as risadas, as lágrimas, os sabores e os cheiros. Mesmo que hoje as pessoas fiquem horas scrollando por diferentes linguagens visuais: nenhuma imagem é contemplada tão atentamente quanto a fotografia de nós mesmos, de nossos parentes próximos, de nossos seres amados.

         Agora, passados dois séculos do experimento de Niépce, não basta viver, é preciso fotografar. Os passeios, os looks, as unhas, o pão, o bolo, o café, o prato do jantar, a lavagem do carro, o corte de cabelo, as pinturas, os livros e, inclusive, esse texto: tudo é feito para terminar em uma fotografia.

    Publicado no jornal A Hora do Sul em 19/08/2026

  • Nem o nosso pai, Adão, nos seus primeiros dias no paraíso, viu um gramado tão verde quanto o que resplandecia no estádio da Boca do Lobo neste sábado. O clássico BRAPEL é sempre um espetáculo e, amigos, vamos ser otimistas: o maior espetáculo da Terra. Mais ainda para aqueles milhares que torraram nas arquibancadas sob um sol impiedoso, influenciados pela condição humana mais incontrolável: a paixão.

    Rubro-negros e áureo-cerúleos ansiavam por esse jogo como um bebê prestes a sorver o leite materno ou um boêmio abrindo a primeira garrafa após uma quarentena. Não faltou engajamento: as torcidas percorreram as ruas da cidade entoando seus cantos e sua alegria. Lotaram o estádio motivados a assistir a uma grande partida, mas nem tudo saiu como o esperado.

    Para seguir sendo otimista, vamos dizer que aqueles vinte e dois jogadores derramaram suor no escudo de suas camisetas, correram, deram pontapés, foram insistentes. Só faltou um detalhe: o bom e velho futebol. O Pelotas botou uma bola no travessão, e o Brasil reclamou de um pênalti. Um chute malicioso? Não teve. Um drible desconcertante? Nem perto. O destaque do BRAPEL foi das torcidas, que se provocaram durante os noventa minutos, mas, depois da partida, não foi difícil ver xavantes e áureo-cerúleos bebendo juntos uma saideira, um tanto cabisbaixos pelo 0x0 desagradável e irredutível.

    9/02/2025

  • Brrrrrrrrrrrrrrr! Brrrrrrrrrrrrrrr! O termômetro estava abaixo dos dez graus quando os corredores do Theatro Sete de Abril voltaram a receber o mesmo vai e vem de antes do fechamento, com famílias carregando filhos pequenos, namorados se beijando em um cantinho menos iluminado e um ou outro espertinho procurando uma janela para fumar às escondidas. No dia do aniversário de Pelotas, foi reaberto o teatro que, há quase duzentos anos, aproxima a cidade da cultura.

    Foi ali que passei parte da adolescência. Eu tinha por volta de quinze anos quando virei um habitué. No Sete ao Entardecer, curti muita música da galera local. Sabe aqueles amigos que tinham banda e ensaiavam na garagem de casa? No palco do teatro, viravam rockstars. Eu gostava de chegar cedo e sentar num dos camarotes, era um espaço mais reservado, até porque às vezes usávamos o truque de unir dois canudinhos para aumentar o seu tamanho e inseri-lo na garrafa de vinho escondida na mochila.

    O Sete também ia além da música. Em dois mil e nove, no projeto Sete Imagens, a projeção de curtas-metragens feitos aqui no estado foi marcante. No dia dezessete de setembro, rolou o lançamento de “Futebol Sociedade Anônima”, dirigido por Cíntia Langie e Rafael Andreazza, que, das produções pelotenses, é a que mais gosto até hoje. Aí, duas semanas depois, passou “Do Mesmo Lado do Muro”, do diretor Bruno Carvalho, de Porto Alegre. Estudando para o Enem naquele ano, eu quase cogitei cursar Cinema em vez de Jornalismo.

    Essas memórias voltavam com clareza na noite fria da reabertura. Apesar de meus aplausos não surtirem efeito no bater das luvas, eu aplaudia com empolgação, consciente de estar vivendo um momento histórico. No palco, Vitor Ramil cantou a música que, para mim, é sua obra-prima, a ponto da letra seguir a semana toda na minha cabeça: “Eu liberto nas palavras / Transmuto a minha vida em versos / Da maneira que eu bem quiser / Depois de tanto tempo de estudo / Venho pra cá em busca de mim’’. 

  •      No terceiro ano, suas vidas tomaram caminhos diferentes. No melhor sentido da palavra, eles terminaram o namoro. Terminaram por causa de uma próclise, quando ele teve a infeliz ideia de escrever “me beija” no caderno novo dela. O problema é que aquele caderno era um Cícero de capa dura que ela havia comprado para escrever seu último trabalho da escola. Um caderno que ela procurou por alguns meses e ficou feliz em ter encontrado por acaso na papelaria. Aí, quando ela viu a anotação na primeira página, disse a ele que uma frase nunca se inicia com pronome oblíquo. E a coisa deu no que deu. 

         Tinha sido o primeiro namoro firme dos dois. Descobriram um no outro prazeres que nunca haviam trocado com ninguém. Às vezes, iniciavam uma conversa com a pergunta: “Onde tu parou?”. E ele respondia coisas como: inhame, inhaca, Inhaúma, Inharé, e dizia essas palavras com uma nasalização forte. Contava que “inha” não existe como uma raiz estável, que era mais um núcleo fonético recorrente do que uma raiz semântica fixa. E ela ria dele repetindo “inhame”, forçando uma careta, como se fosse fanho. E se divertiam abrindo palavras, contando sílabas, descobrindo etimologias que os levavam a histórias longínquas e a línguas mortas das quais eles não reconheciam sequer uma única vogal. 

        Certa vez, eles deram para ler frases de trás para frente, tentando achar palíndromos. Mas o exercício se mostrou um pouco chato para uma sexta-feira e, quebrando o silêncio, numa reação inesperada, ela se pôs a ler um soneto. Um soneto que falava do entardecer, do modo como a terra engole o sol, de como o escuro vai cobrindo o azul do céu, até o momento em que a noite abraça as pessoas com um suspiro propício para encontros demorados. Um soneto que ela mesma havia escrito e no qual era possível entender que falava sobre a natureza. Mas a sua entonação teatral, desdobrando as palavras, com os lábios umedecidos e gemidos de prazer, encheu o ambiente de erotismo. E os dois se entregaram ao desejo tomados pela descoberta.

        Passaram, então, a usar poemas como um artifício sexual. Leram elegias de Vinicius de Moraes, baladas de Pablo Neruda e, numa tarde de verão, tentaram ir direto ao ponto com Bocage. Mas, se o poema falasse de sexo, ficava sem graça. Interessante era a interpretação voluptuosa dos versos. Logo consumiram tanta poesia que perceberam precisar de uma substância mais forte. Quando passaram para a prosa, leram capítulos inteiros de Dona Flor e Seus Dois Maridos, passagens deliciosas de James Baldwin e, numa noite de inverno, iam quase terminando a primeira parte de Os Detetives Selvagens. O fato é que toda aquela leitura os aquecia como se as palavras estivessem em brasa, e seus corpos ficavam enroscados por um tempo sem fim.

        Foi uma fase de descobertas em suas vidas. Porém, a cada dia, o sol transmite um calor diferente. Quando ocorreu o episódio do caderno, eles já sabiam que algumas vírgulas estavam fora de lugar e que alguns versos iam mancos. No dia em que se despediram, os dois choraram juntos, prometeram não se esquecer daqueles momentos e deram um beijo de língua.

  • O ano era 2012. Estava procurando algo novo para ler na Livraria Vanguarda quando encontrei o livro Lero-lero, do Cacaso, da coleção Cosac Naify Portátil. Até então, eu não conhecia o autor. O que me levou a comprar o livro foi o título coloquial, o design da capa e o hype da editora.

    Depois de ler um pouco do livro, fui pesquisar sobre o Cacaso na internet e descobri que ele fazia parte de um movimento de poetas dos anos 1970 chamado Geração Mimeógrafo, e que os trabalhos desse grupo também ficaram identificados como Poesia Marginal.

    Não lembro exatamente quando li pela primeira vez o nome de Ana Cristina Cesar. Mas lembro com nitidez do que senti ao vê-la, no YouTube, lendo o poema Samba-canção:

    Tantos poemas que perdi

    Tantos que ouvi, de graça,

    pelo telefone – taí,

    eu fiz de tudo pra você gostar,

    fui mulher vulgar

    meia-bruxa, meia-fera,

    risinho modernista

    aranhando na garganta,

    malandra, bicha,

    bem viada, vândala,

    talvez maquiavélica,

    e um dia emburrei-me,

    vali-me de mesuras

    (era uma estratégia),

    fiz comércio, avara,

    embora um pouco burra,

    porque inteligente me punha

    logo rubra, ou ao contrário, cara

    pálida que desconhece

    o próprio cor-de-rosa,

    e tantas fiz, talvez

    querendo a glória, a outra

    cena à luz de spots,

    talvez apenas teu carinho,

    mas tantas, tantas fiz…

    O vídeo da Ana Cristina Cesar me apresentou uma poeta rebelde, mas de uma rebeldia elegante e, sobretudo, uma rebeldia inteligente. Havia, na figura dela, uma malandragem, mas uma malandragem que nasce da prática íntima do ofício, de quem domina a linguagem sem precisar ostentá-la. Imaginei uma intelectual fora dos limites formais da academia, alguém cuja inteligência parecia surgir naturalmente da curiosidade. Ela ia lendo o poema com rimas e ritmo de canção. E, antes mesmo de compreender o conteúdo do poema, cantarolei fragmentos sonoros dos versos. Foi um sentimento de liberdade através da poesia. Acredito que eu possa ter sentido um impacto artístico que a crítica Heloísa Teixeira chamou de “Efeito Ana C.”.

    No prefácio do livro 29 Poetas Hoje, Heloísa Teixeira escreve que tudo começou com Ana Cristina Cesar. Esse ponto de partida refere-se à influência poética, à figura estética e à trajetória de vida da autora. Entre depoimentos de poetas contemporâneas, repete-se quase de forma unânime a percepção de que o encontro com a obra da Ana Cristina proporcionou uma experiência transformadora. Ao discutir a relação entre poesia-feminino-feminismo na verve da autora, Heloísa Teixeira evidencia o desagrado de Ana Cristina diante da postura de críticos homens que enquadraram a produção poética feminina numa categoria limitadora de “poesia de mulher”. Trata-se de uma definição que, para Ana Cristina, era rasa e romântica, romântica num sentido ingênuo. Esses críticos classificaram essa “poesia de mulher” como: “uma poesia do sensível, do inefável e do tênue, uma poesia que privilegia o pudor, o velado e o inviolado”.

    Ana Cristina procura construir uma poética que inverte esses pressupostos bem-comportados atribuídos à linguagem feminina. Assim, ela escreveu: “Onde se lia flor, luas, delicadeza e fluidez, leia-se secura, rispidez, violência sem papas na língua. Sobe à cena a moça livre dos bons costumes: a prostituta, a lésbica, a masturbação, a trepada, o orgasmo, o palavrão, o protesto, a marginalidade.”

    Inserida em um contexto histórico em que a circulação alternativa da poesia se apresentava como a opção mais viável para os novos poetas, nos anos 1970, os mimeógrafos começaram a rodar porque a produção de livros era cara e fortemente controlada. Os livros mimeografados eram vendidos de mão em mão, em bares, universidades e encontros culturais. Nessa prática, os poetas encontraram uma forma de expressão e de liberdade criativa.

    Os poetas dessa geração encontravam-se à margem não apenas das instituições editoriais e culturais, mas também dos modelos estéticos e políticos predominantes, pois experimentavam uma nova forma de subjetividade. Em vez do discurso revolucionário coletivo da década de 1960, suas obras passaram a privilegiar a experiência individual, incorporando o corpo, a sexualidade, os afetos e o cotidiano como dimensões políticas. Assim, no lugar do poeta engajado, emerge o poeta da experiência, atento às micropolíticas da vida diária e à esfera privada como espaço possível de resistência.

    Dentro desse cenário estético, no poema Samba-canção, é possível reconhecer as características da poética construída por Ana Cristina Cesar. O texto revela um eu lírico capaz de assumir uma diversidade de identidades femininas. O verso “eu fiz de tudo pra você gostar” funciona como uma chave de leitura, sugerindo, num primeiro olhar, uma tentativa de conquistar o amor ou sustentar uma paixão.

    Entretanto, as múltiplas personas que o eu lírico afirma encarnar, “fui mulher vulgar / meia-bruxa, meia-fera, / malandra, bicha, / bem viada, vândala, / talvez maquiavélica”, ultrapassam a ideia de simples conquista amorosa. Há, nesses versos, um humor ácido e uma forte dose de ironia que desmontam os estereótipos associados ao feminino.

    Samba-canção é construído por movimentos discursivos de acumulação identitária e por certas aliterações, elaboradas em uma linguagem performática. Performática, aqui, no sentido de incorporar elementos da cultura popular. Além de funcionar como chave para a exposição de uma série de personas femininas, os versos “[…] — taí, / eu fiz de tudo pra você gostar” são uma colagem da canção Pra você gostar de mim, do compositor Joubert de Carvalho, sucesso internacional na voz da cantora Carmen Miranda.

    Além das questões temáticas, o poema não apresenta uma estrutura métrica fixa: é composto por versos livres, que variam entre cinco e dez sílabas poéticas. Lembrando que o verso livre ganhou destaque na literatura brasileira a partir do movimento modernista. E, como relata o amigo e biógrafo Ítalo Moriconi, Ana Cristina era leitora atenta de poetas e críticos paulistas.

    Retomando minha própria experiência de leitura, durante a disciplina Escrita Feminina na Poesia, assistimos a um vídeo em que a crítica Heloísa Teixeira relata ter conhecido Ana Cristina Cesar pela leitura de seus textos, isto é, por meio do encontro direto com o poema escrito. Esse depoimento provocou uma comparação inevitável com a minha descoberta da autora, mediada pela cultura digital.

    Essa reflexão conduz a uma questão contemporânea: hoje, o primeiro contato com a poesia frequentemente ultrapassa a página impressa, chega-nos pela voz, pela imagem, pelo gesto dos poetas que divulgam seus poemas na internet. Pergunto-me, então, se a leitura silenciosa do poema teria produzido em mim a mesma impressão inicial. Assistir ao poeta, observar sua presença, seu modo de vestir, sua entonação e sua forma de dizer o poema talvez configure, na contemporaneidade, uma via de acesso à poesia, capaz de ampliar o alcance e conquistar novos leitores.

    Nesse contexto de mediação pela imagem, no vídeo em que Ana Cristina lê seu poema, o enquadramento mostra apenas o busto da poeta, mas, ainda assim, é possível perceber a construção cuidadosa de sua presença cênica. A roupa branca que veste estabelece um contraste evidente com o fundo mais escuro, produzindo um efeito de luminosidade. Esse jogo visual contribui para a criação de uma imagem de clareza e centralidade, quase como se a voz poética emergisse iluminada no espaço da gravação.

    Os brincos dourados e os óculos de aros igualmente dourados reforçam uma elegância discreta, compondo uma identidade visual que combina sofisticação e informalidade intelectual. Esses elementos ajudam a construir uma persona autoral que ultrapassa o texto escrito, pois a recepção do poema passa também pela percepção do estilo e da presença da poeta.

    O vídeo inicia com a autora anunciando o título do poema: “Esse aqui chama Samba-Canção”. Enquanto lê os primeiros versos, percebe-se em sua expressão um sorriso de contentamento, quase cúmplice, como se compartilhasse com o público a intimidade daquele instante de leitura. À medida que avança, porém, o seu rosto torna-se mais sério. A mudança sugere um deslocamento da leveza inicial para uma concentração mais intensa, necessária para a transmissão das camadas afetivas e reflexivas do poema.

    Próximo ao desfecho, a câmera fecha gradualmente o enquadramento, aproximando-se do rosto da poeta em um plano quase 3×4. Essa aproximação intensifica a sensação de intimidade e coloca o espectador diante da experiência viva da enunciação poética. Assim que concluí a leitura, ela abre um sorriso largo, um gesto que parece reunir satisfação e consciência do próprio ato criativo. Não se trata apenas de um sorriso de prazer, mas de uma afirmação existencial: a alegria de quem reconhece o sentido de fazer aquilo que ama e de ter produzido um trabalho potente.

    É justamente nesse momento final do vídeo, nesse sorriso após a leitura de Ana Cristina Cesar, que vemos uma realização da própria existência, como se o poema continuasse reverberando na sua felicidade. E, no limite desse gesto, se tu estiver atento, é possível ouvir ecoar o “risinho modernista / arranhado na garganta”.

  • Fazia algum tempo que eu não sonhava. Quando consigo lembrar de um sonho, é porque dormi durante a tarde. Em gauchês, isso significa dar uma sesteada. Agora, para que esse fenômeno aconteça, é preciso ter a tarde livre. Aí sábado, depois de um almoço reforçado na Nave, caminhei num friozinho de nove graus, cheguei em casa e o sol estava entrando pela janela do quarto. Foi inevitável.

    O sono foi tão profundo que meu inconsciente parou num lugar onde tudo era estranho. Não reconhecia nada, era como estar em um planeta remoto. Senti um medo parecido com o que tive assistindo Interestelar. Aos poucos, relaxei. E me veio uma vontade de nomear as coisas.

    Para um objeto pontiagudo, dei o nome de “Kikira”. E o nome de “Boubaunda” para outro mais arredondado. Parecia lógico. Um objeto de linhas retas merece um nome mais pontudo, assim como um objeto com curvas, um nome mais bojudo.

    Sei que isso vai contra uma vaca sagrada da linguística, já que Saussure estabeleceu por a+b, que não existe relação natural entre palavra e objeto. Convenhamos: o sonho é o parquinho da imaginação, onde tudo é possível. Assim, acordei e lembrei dela: “Seu beijo, seu texto / Seu queixo, seu pelo / Sua coxa”. Como ela ainda parece além da imaginação, levantei e fui ler um livro.

  • Nem o nosso pai, Adão, em seus primeiros dias no paraíso, viu um gramado tão verde quanto o que resplandeceu na tarde de hoje no estádio Bento Freitas. Foi um domingo em que o futebol proporcionou o que há de mais legal em sua cultura: um encontro com os amigos, uma partida tecnicamente aceitável e uma vitória que alargou sorrisos.

    Assisti ao jogo ao lado do meu pai e do meu tio. Meu tio soltou a desculpa de que precisava sair de casa para tomar um pouco de vitamina D. Tudo bem, acreditei. A cerveja que bebemos era apenas uma consequência. De fato, fazia calor, e o sol estava com aquela intensidade capaz de derreter catedrais. 

    O Brasil saiu na frente logo nos primeiros minutos do primeiro tempo. Os onze de camisa rubro-negra estão muito, mas muito mais entrosados do que os onze de toga lá de Brasília. Um cruzamento para a área e uma cabeçada maliciosa, no ângulo, abriram caminho para que os gritos saíssem das gargantas e tomassem conta da tarde.

    Foi uma tarde em que babas de boi flutuavam no ar. Meu pai disse que isso era sinal de chuva. Não respondi, mas, em silêncio, forcei uma conexão direta com São Pedro e pedi em prece: amanhã não pode chover no Cine Nave. Essa superstição surgiu depois que um jogador do São Joseense sofreu um mal súbito em campo e, o árbitro, com um elã de pastor, ajoelhou-se e rezou fervorosamente, com os dedos apontados para o céu. Foi uma cena extravagante. Felizmente, logo depois, o Brasil marcou mais um gol.

  • Soneto do amor virtual

    Encontrei-a no tinder de manhã,
    logo quis conhecer melhor ao vivo,
    mas pediu: “me adiciona no instagram’’
    e seguimos nesse outro aplicativo.

    Mal conecto aparece a cidadã
    que viu no meu perfil que estou ativo.
    Só que quando proponho o tananã
    parece que fiquei radioativo.

    Há quem goste mais de homem, de mulher,
    de animal, de cadáver, de apanhar,
    e há quem goste, como esse meu affair,

    de manter relação com avatar.
    Só me resta pensar: “fiz o que pude’’
    torcer para, ao menos, receber um nude.